No tempo da delicadeza

Em 26 de setembro de 2012 por Carolina Nogueira

 

Fazia ontem minha habitual ronda matinal pelas frivolidades do face quando tropecei num comentário que ficou ressoando na minha cabeça o resto do dia: “O cara que descreveu o brasileiro como cordial, simpático, alegre e extrovertido NUNCA esteve em Brasília”, protestava minha amiga – que é gaúcha, para piorar a situação.

De tudo o que as pessoas falam mal de Brasília (e a lista não é pequena), essa é a crítica que mais me dói. Por um motivo simples: infelizmente acho verdade.

Resistia a admitir isso, como militante aguerrida da minha cidade. Questionava: somos cíclicos, recebemos sistematicamente gente vinda de todo canto do Brasil e do mundo. Nossas turmas estão sempre em mutação, somos os reis em fazer amigos dos amigos dos amigos. Como podemos ser ao mesmo tempo agregadores e desagradáveis?

Sei lá se pela pressa de toda grande cidade, se pelo nosso modus operandi que nos isola em carros quase sempre mono-ocupados ou se é um sintoma da desagregação social que – de novo, infelizmente – é marca da cidade. O fato é que muitos de nós deixamos a simpatia e a cordialidade em algum lugar do caminho dos nossos 50 e poucos anos.

Nos únicos cinco que morei fora de Brasília vivi num lugar em que o hábito de se dar bom-dia é quase uma obsessão. Você entra em um elevador e dá bom dia, sai dele e dá bom-dia. Se entrar, sair e entrar de novo em uma mesma sala, e cruzar com as mesmas pessoas, capaz de ouvir bom-dia três vezes. E eu não estou exagerando.

Quando voltei, fiquei impressionada de ver que simplesmente não temos esse hábito tão simples. Nas lojas, o bom-dia atualmente cedeu a vez à pergunta sistemática: “quer CPF na nota?”. Nem sei se quero, mas dá para me dar “oi” antes? No elevador, na entrada dos prédios, nos banheiros públicos – tem gente que chega se assusta quando você cumprimenta de verdade, olhando direto para ela.

Na seção favorita da minha revista favorita – onde um filósofo responde a perguntas feitas por crianças – li uma vez um menininho de 5 anos que perguntava: “Por que temos que dizer toda vez ‘por favor’ ou ‘obrigado’ se já falamos várias outras vezes?”.

Da resposta fofa que o filósofo francês Pierre Pieu deu a ele, a melhor parte é quando explica: “Os humanos, crianças ou adultos, não são mecânicos, como um distribuidor automático de bebidas. Cada um de nós pensa e tem sentimentos, cada um de nós fala, e quando nos cumprimentamos, cada um de nós mostra que reconhece no outro um semelhante”.

Simples como um bom-dia.

Bora?
Repita comigo: Bom dia! Tudo bem? Boa tarde! Boa noite! Boa semana! Obrigada! Bom descanso! Bom almoço! E sério, agora, do fundo do coração: um bom dia pra você!