As reformas que deformam Brasília

Em 04 de dezembro de 2012 por Dani Cronemberger

reforma

Ontem uma foto no facebook me deu um arrepio na espinha. Um amigo postou sua indignação, que virou minha e de todo mundo: o bloco D da 308 sul, quadra modelo de Brasília, era mais uma vítima de reforma e os azulejos geométricos, parte da personalidade da quadra e da história da cidade, estavam sendo destruídos. Horror total.

Corri lá depois do almoço, pra me chocar pessoalmente, e o mestre de obras jurou com os pés juntos: os azulejos seriam trocados por outros idênticos, que o condomínio já havia encomendado. Suspiro de alívio, mas… peraí: e tinha que destruir os originais? O prédio precisava de um engenheiro, mas não de um restaurador? A julgar por um prédio já reformado na 308, em frente a um jardim do Burle Marx, o azulejo pode parecer igual, mas o resto… Um desalento.

O que acontece em Brasília é que, aos 52 anos, a cidade passa pela primeira leva de reforma nos blocos do Plano Piloto, a título de conservação – mas deveria se chamar depredação. É um festival de criatividade dos condomínios que, ao invés de respeitar a arquitetura e a história da cidade, resolvem embelezar as fachadas de acordo com o padrão estético do síndico. E haja granito, haja blindex, haja porcelanato. Alguns resolveram fazer grafismo na lateral dos blocos.

Essa história acabou me fazendo descobrir algumas coisas interessantes: uma é que os azulejos da 308 sul não são do Athos Bulcão, como eu sempre acreditei (informação dada pela Fundação Athos). Outra é que a quadra modelo – assim definida porque serve de referência urbanística e arquitetônica pra cidade – é duplamente tombada.

Além do tombamento do Iphan, que abarca o Plano Piloto inteiro e regiões próximas, a quadra é tombada pelo GDF desde 2009, junto com a 107, a 108 e a 307 sul, a biblioteca, o Clube Vizinhança, o Cine Brasília e até o posto policial. Nessa área, além do governo federal (por meio do Iphan), o GDF também se responsabiliza por fiscalizar e preservar as “características fundamentais que singularizam Brasília”, como diz o decreto do ex-governador Arruda.

O que acontece na prática? Segundo a Secretaria de Cultura do DF, quando um condomínio dessa área resolve fazer uma reforma, ele deve pedir um alvará à Administração Regional de Brasília, que, se achar necessário, consulta a Subsecretaria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. O que aconteceu no caso do bloco D da 308? A administração regional não achou necessário consultar a subsecretaria sobre uma reforma numa quadra duplamente tombada. Ah, tá.

E com essa cultura de não consultar os órgãos de patrimônio histórico, Brasília vai se descaracterizando e, pior, por decisão dos seus moradores. Claro que a culpa não é só dos síndicos, nem de quem mora nos prédios. A gente tem dois problemas maiores:

1. Falta fiscalização, do GDF e do Iphan, na parte que lhes cabe. Há um tempo, reinava a ideia de que o tombamento do Iphan era só “volumétrico”, ou seja: se não alterasse a forma dos edifícios, tudo bem. Hoje, a visão da direção do órgão é outra: Brasília inteira é tombada, inclusive seus edifícios, e o Iphan pode sim embargar uma reforma ou multar um condomínio caso a intervenção esteja fora das normas do tombamento. Mas sabe quantos técnicos o Iphan tem pra fazer essa fiscalização? Três. Isso agora, porque há três meses era só um fiscal.

2. Falta educação. “O Estado tem dificuldades para implementar, de maneira eficiente e generalizada, a educação patrimonial. No momento em que a pessoa entende a importância de preservar a estética e a história da cidade, ela mesmo toma a frente e não aceita a descaracterização”, disse o coordenador técnico da Superintendência do Iphan no DF, Thiago Perpétuo, numa conversa com o blog.

Agora, me pergunto: alguém aí no Estado, esse com E maiúsculo, vai se preocupar com isso? Que tipo de relação a gente vai ter com a cidade – ela vai ser afetiva, vai ter memória, história? Que identidade Brasília vai ter no futuro? Hoje, olhando em volta, dá tristeza. Porque não só o Estado, que não investe e não prioriza, mas a imprensa local e o brasiliense também parecem não se importar.

Bora?
Denuncie absurdos para:
* Iphan – Superintendência do DF
2024-6456
* GDF – Subsecretaria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural
3325-6157 / 3325-6269
* Ministério Público – Ofício de Patrimônio Público
Núcleo de Atendimento ao Cidadão – 3313-5525 / 3313-5640

E se o assunto for reforma, respire fundo e participe da reunião de condomínio.

* Texto atualizado às 11h47.