A Praça Noel Rosa

Em 04 de junho de 2017 por Daniel Cariello

Prefácio da Carol Nogueira:
A título de prefácio, antecedo a crônica do Daniel Cariello com um comentário: o texto da semana dos nossos dois colaboradores chegaram às nossas caixas de correio na semana passada com uma coincidência incrível. Tanto Zuzu quanto o Dani abordavam exatamente o mesmo tema em suas colunas – o samba do SCS. O Dani achou que a coincidência derrubaria a crônica dele. Eu acho o contrário. Que não existem coincidências – e que esses dois textos e fotos sobre esse lindo encontro semanal significa muita coisa.

A Praça Noel Rosa, por Daniel Cariello

Colocaram uma pedra no centro de Brasília, o Setor Comercial Sul, pra marcar a ocupação da área pública por seu real proprietário, o povo. Pedra reinaugural simbólica: “Todas as sextas-feiras, das seis da tarde à meia-noite, esse lugar passará a ser chamado Praça Noel Rosa”, declarou um deles, preenchendo o copo dos cúmplices, mais do que parceiros, e puxando na voz um samba: “podem me prender / podem me bater / podem até me deixar sem comer / que eu não mudo de opinião / daqui do morro eu não saio, não”.

Puxaram na voz o samba Opinião, dividindo o microfone, compartilhando a praça e a música com quem quisesse se instalar para tomar um trago antes de enfrentar a volta para casa. E com quem chegasse pra ali ficar até soar o último acorde da noite.

Partilharam a praça e a música com trabalhadores dos escritórios, consultórios, cartórios e outros ofícios notórios, desses que povoam os centros das cidades. Com atendentes, gerentes e delinquentes daquela redondeza. Com amigos e amores, com crianças e cantores, com senhoras e senhores.

Completaram o copo dos cúmplices com a companheira cachaça do Eliseu, trazida pessoalmente pelo dito-cujo. E entoaram a canção composta em loas à aguardente artesanal, jurando que “é coisa pura, curtida no barril de pólvora e faz subir a nossa temperatura”. Só tocada quando a dupla, Eliseu e sua cana, se faz presente. Felizmente, para músicos e público, o comparecimento tem sido alto.

Emendaram uma música e uma cachaça em outra música e outra cachaça e invocaram Cartola, Vinícius e Clara, Clementina, Baden e Nara, mortos e vivos, ilustres e obscuros, todos, a baixarem por ali para tomar posse do microfone, da mesa, da Praça Noel Rosa, do centro, da cidade.

Bicaram mais uma vez a cerveja gelada, para as palavras e melodias escoarem mais facilmente. Abriram espaço para a dança da mendiga, que não perde uma edição do evento. Tomaram cuidado de não irritar o Barreto, pois o fornecimento de espetinhos precisa continuar. Esticaram um pouco o horário, atendendo pedidos de fora e de dentro da mesa. Permaneceram por lá até depois do fim da festa, só pra prosear um pouco mais.

Ocuparam, convidaram e cantaram. Ensaiaram, compartilharam e resistiram. E como o samba guarda um pé no passado – ou na tradição – e um olhar para o futuro, enquanto tocam, vão embalando em música a transformação de um espaço no coração de Brasília.


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